quarta-feira, 18 de julho de 2018

Paisagem da Escrita - Um Balanço!


Quando decidi reorganizar o blogue "Manuscritos da Galaxia" (ainda sem acento), foram criados diversos blogues temáticos para facilitar a leitura e também as diversas "postagens", ficando o "Manuscritos da Galaxia" dedicado aos filmes/cineastas; "Memórias de Marte", ao universo dos livros; "Photos da Memória", oferecendo uma viagem pela fotografia; "As Cores da BD", dedicado à 9ª Arte; "A Luz do Som" recordando as sonoridades musicais que me preenchem os dias e a "Paisagem da Escrita", que de certa forma tem privilegiado a crónica, abordando os temas mais diversificados. E embora continue a viajar pela memória das salas de cinema que conheci ao longo dos anos, será a crónica o elemento eleito no futuro para o "Paisagem da Escrita", um blogue essencialmente para ser lido, não como um diário, mas simplesmente como essa escrita na água, de que um dia Augusto Abelaira falou/escreveu, na saudosa revista "Vida Mundial".

Bom dia!

RLL

sábado, 14 de julho de 2018

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Cinema Odeon


Foi a 18 de Setembro de 1927 que o cinema Odeon abriu as suas portas, tendo tido diversas alterações em 1933, onde a célebre Art Deco era rainha, sendo um dos cinemas que frequentei na infância e por onde abundavam não só filmes oriundos do país vizinho, com essas vedetas chamadas Marisol e Joselito, mas também alguns filmes portugueses da década de 60, assim como comédias e westerns “Made in Italia”.


Mas o que me seduzia nesta bela sala de espectáculos era também a sua estrutura metálica, em perfeita harmonia com a madeira escura e o tecto em forma de quilha de navio e depois havia ainda os célebres néons que iluminavam a sala, num lustre enorme e quando ía com a minha avó e uma tia, que gostava muito deste género de filmes, para o 2º balcão, sentia-me no topo do mundo a olhar para o écran mágico do cinema lá em baixo.


Foram inúmeros os filmes que vi do jovem Joselito e da bela Marisol, com as suas inevitáveis cantigas, mas  também me recordo de uma comédia oriunda de Espanha e intitulada “O Delicadinho do Quinto / “No desearás al vecino del quinto”, com esse comediante chamado Alfredo Landa, falecido em 2014 e que nos dias de hoje seria possivelmente “politicamente incorrecto” e aqui confesso que fixei o nome de uma senhora: Ira von Furstenberg.


Já no que diz respeito às comédias portuguesas desses anos 60, do século xx, que foram “apagadas” da memória cinéfila, destaco a película “O Ladrão de Quem se Fala” de Henrique Campos, com o Camilo de Oliveira no protagonista, que a dada altura desce de pára-quedas, numa das suas fugas, em plena baixa Lisboeta, junto ao elevador de Santa Justa. Outra película que vi deste realizador no cinema Odeon foi “Ribatejo”, que a minha avó adorou. Tal como viria a suceder anos depois com “Os Touros de Mary Foster”, também assinado por Henrique Campos.


Foram assim inúmeros os filmes que vi no cinema Odeon, quase sempre comédias e alguns westerns, ao mesmo tempo que me recusava a ir ver os filmes da Sarita MontielJ! No entanto a última vez que entrei nessa sala foi para ver um tal “Flesh Gordon” de Michael Benveniste e Howard Ziehm, que pedia para não ser confundido com o original “Flash Gordon” e cujo trailer se encontra disponível no Youtube, possivelmente um dos piores filmes que vi ao longo da minha passagem por este planeta, mas também se poderá denominar como um bom exemplo do “kitsch” no cinemaJ!


Antes de eu ter nascido, esta sala albergou grandes clássicos do cinema, mas iria terminar os seus dias na década de noventa, esquecida por todos e depois de ter sido votada ao abandono durante vários anos, o Cinema Odeon, na Rua dos Condes, em Lisboa, irá ser transformado em prédio de habitação e espaço comercial, embora tenha sido prometido que a sua fachada seria mantida, a ver vamos...

Rui Luís Lima

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Cinema Restelo


Para fechar o trio de cinemas a que mais vezes fui na vida, não posso deixar de lado o Cinema Restelo, que foi inaugurado nos anos 50, do século passado, substituindo de alguma forma o Belém-Cinema.
Este cinema fazia as nossas delícias também pela sua enorme bola de espelhos, que nos fascinava enquanto a luz não se apagava para dar lugar a essa maravilhosa fábrica de ilusões que é o cinema.


Aqui repeti “Oficial e Cavalheiro” / “An Officer and a Gentleman” de Taylor Hackford, um dia depois de o ver no Cinema 2000 e só posso dizer que o coração tem razões que o próprio cinema desconhece J.


Foi também nesta sala que vi o famoso filme de ficção-cientifica “Dune”, realizado pelo David Lynch e fiquei para sempre deslumbrada com os desertos (se bem que dispensasse as cenas com o Sting e as borbulhas) e ainda o filme “Mad Max Para Além da Cúpula do Trovão” / “Mad Max Beyond Thunderdome”, de George Miller, com Mel Gibson e a Tina Turner (que devia ter ficado pelas cantigas).


O grande écran da sala do cinema Restelo ainda hoje me enche de saudades. Do seu balcão, nas primeiras filas, tinha-se a noção que se via as mais belas imagens que uma câmara consegue projectar, oferecendo ao espectador esse desejo maravilhoso de conviver com os astros e as estrelas da Sétima Arte que povoavam o nosso imaginário, levando-nos a viver romances impossíveis, que geralmente terminavam com os famosos Happy-Ends, ou essas aventuras em espaços e territórios inóspitos transmitindo as mais diversas emoções a todos como eu que adoram uma boa história com princípio, meio e fim.


Nos dias de hoje, esse belo espaço que foi habitado pelo Cinema Restelo, foi transformado em zona comercial ficando para sempre esquecida a sua função primordial: a exibição de filmes num grande écran!

Paula Nunes Lima

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Cinema 2000


No pós 25 de Abril de 1974, ou seja no século passado J, começaram a nascer os Centros Comerciais e Algés não foi excepção, se bem que este Centro Comercial, de pequenas dimensões, se situasse no início do que era considerada a zona mais chique de Algés, ou seja Miraflores, passando a ser local de passeio habitual.


Desse Centro Comercial fazia parte o Cinema 2000, tendo sido inaugurado nos anos setenta do século passado e embora não possa precisar a data, vi recentemente um bilhete (numa busca na net) de 1977.
Um dos primeiros filmes a ser visto lá por toda a família, numa excursão nocturna (da qual eu não fiz parte, por ser ainda muito pequena), foi a famosa película de Stanley Kubrick  “2001 Odisseia no Espaço” / “2001: A Space Odyssey”, numa reposição. Sei que as mais novas que participaram na dita “excursão” adormeceram. Tal foi a má opinião que trouxeram do filme, que eu só ganhei coragem para o ver, muitos anos mais tarde: não adormeci e adorei!


Este cinema estará para sempre ligado na uma ida rara ao cinema com o meu pai, para ver “Uma Ilha no Tecto do Mundo” / “The Island at the Top of the World” do Robert Stevenson (e acabei de descobrir que andei enganada a vida toda, porque sempre pensei que o filme se baseava num livro do Jules Verne), mas também por lá vi o célebre “Flash Gordon” de Mike Hodges (visto em Maio de 1981), em que se destacam o Max Von Sydow como Ming e o Topol (o célebre actor de “Um Violino no Telhado” / “Fiddler on  the Roof”) como Dr. Hans Zarkov e sobretudo a banda sonora mais que perfeita dos Queen. Outra película que me ficou na memória para sempre foi o célebre “Bambi”, numa sala cheia de criançada e eu já com os meus 15 anos.


Foi também no Cinema 2000 que vi pela primeira vez a película“Oficial e Cavalheiro” / “An Officer and a Gentleman” de Taylor Hackford. Recordo-me bem que nessa época, no liceu, era generalizada a paixão pelo Richard Gere.
Terão sido muitos mais os filmes que por lá vi, mas estes são os que ficaram na minha memória.
Nos dias de hoje, o Cinema 2000 e o seu espaço envolvente de lojas estão praticamente abandonados, como muitos dos espaços/centros comerciais de pequena dimensão, que no século passado eram locais de convívio e fizeram furor.

Paula Nunes Lima

terça-feira, 19 de junho de 2018

Cinema Stadium


Gostava de ter uma capacidade de memória como a do jovem cá de casa, mas não é assim. Acho, aliás, que “colecciono” fotos e papel por ter essa “falha”.
Mas vou fazer um esforço para me lembrar e poder falar dos três cinemas que mais marcaram a minha vida, especialmente por serem os que estavam mais perto de casa e de mais fácil acesso.
Comecemos pelo Cinema Stadium, parte integrante do edifício do Sport Algés e Dafundo, em Algés. Foi inaugurado nos anos 30, sendo o edifício da autoria do arquitecto Raúl Tojal.


Sei que foi o cinema que os meus pais mais frequentaram até eu nascer, já que a partir dessa altura os serões cinéfilos foram abandonados, porque eu não ficava com os meus avós nem por nada.
Lá viram “Os Canhões de Navarone” / “The Guns of Navarone” de J. Lee Thompson e para sempre lhes ficou na memória. Tal era o gosto que, muitos anos depois, quando lhes ofereci o filme em VHS, viram-no de imediato (embora não deixassem de referir nessa altura que numa sala de cinema é que era!)


Junto mais duas memórias deles: uma matiné em que foram ver “O Rei das Berlengas”, de e com o Artur Semedo, o Mário Viegas e até o Astérix e o Obélix e saíram de lá um bocadinho desencantados J! Achavam que iriam ver um filme português tipo as comédias dos anos 30 e 40 (as do Vasco Santana e António Silva) e afinal não tinha nada a ver.
Claro que esta sala de cinema também está ligada às minhas memórias através dos meus pais, devido ao célebre filme de Bernardo Bertolucci  “O Último Tango em Paris” / “Last Tango in Paris”, contando a minha mãe que na fila à frente uma senhora, bastante mais idosa, passou parte do filme com “oh!”’ e “ah!”’ e um baixinho “olha para aquilo”.


Da minha memória, se bem que devem ter sido bastantes os filmes lá vistos, consta a película da Disney “Se a Minha Cama Voasse” / “Bedknobs and Broomsticks” de Robert Stevenson. Talvez por ter sido a primeira vez que fui ao cinema à noite! Durante algum tempo, após ter visto o filme, não resisti a tentar rodar as maçanetas das camas, sempre com uma secreta esperança, que ela voasse.


Nos anos mais recentes, outras foram as funções desta sala. Por lá vi Teatro e Concerto de Música Clássica, numa semana de homenagem ao Zeca Afonso, respectivamente “O Diabinho da Mão Furada”, do António José da Silva, pela Barraca, sendo o Concerto de Piano, com o Maestro António Vitorino de Almeida. E até serviu para local de voto em Algés, durante as eleições, bem como sala de ensaios de uma banda. A última vez que por lá passei estava com um ar de total abandono!

Paula Nunes Lima

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Chiado Terrasse


Na Rua António Maria Cardoso existiram, em tempos idos, duas salas de cinema, o São Luíz (que foi ontem aqui visitado) e o Chiado Terrasse, que guardo na memória com imenso carinho, porque foi nele que entrei pela primeira vez numa cabine de projecção, graças à gentileza do Sr. Raul, pessoa conhecida da minha avó e que me mostrou, com enorme carinho e satisfação, como tudo funcionava, para meu grande fascínio, nessa idade mágica dos oito anos.


Mas voltemos um pouco atrás para sabermos como nasceu este belo cinema de bairro. Os proprietários do Chiado Terrasse, quando decidiram a sua construção, tinham em mente um espaço dedicado ao célebre Animatógrafo, que na época, 1908, começava a fazer as delícias dos habitantes da capital e curiosamente muitos chamavam-lhe “Animatógrafo falado”, porque alguns profissionais do teatro colocavam-se por detrás do palco e davam fala às personagens quando surgiam os célebres intertítulos, mas nem só o cinema viveu no Chiado Terrasse, porque também o denominado Teatro de Revista teve ali lugar, como alguns saraus musicais.


Nos anos 30, do século passado, foi remodelado, recorde-se que tinha um jardim interior com esplanada que posteriormente iria ar lugar à sala que eu conheci na segunda metade dos anos sessenta e onde vi as célebres “cowboiadas”, com Zorros e Ringos, o meu amigo Tarzan, mas também às comédias de duas duplas famosas na época e que faziam as minhas delícias: Abbott e Costelo, em particular o filme “A Galinha dos Ovos de Ouro” / “Jack and the Beanstalk”, que me faziam rir imenso, cujos filmes eram a preto e branco e essa outra dupla, por vezes já a cores, constituída por Jerry Lewis e Dean Martin, sendo um dos meus favoritos a película “O Rei do Laço” / “Pardners”..


Mas se nas comédias a minha idade de um digito terrestre não era problema, já nos “westerns” a presença da minha avó facilitava a entrada nos filmes para 12 anos ao miúdo alto, que tinha ainda a idade de um digito, até que chegou essa sessão da noite em que passava o “Ulisses” com Kirk Douglas, Silvana Mangano e Anthony Quinn, realizado pelo cineasta italiano Mario Camerini e com produção de uma dupla de peso constituída por Carlo Ponti e Dino de Laurentis e nessa noite foi-me impedida a entrada, porque era bem visível para o senhor da portaria que eu não tinha idade para ver o filme.


Mas com quem ele não contava, nem eu, que fiquei bastante enfiado, foi com a minha mãe, que decide apresentar os seus argumentos sobre a minha idade, chegando a ameaçar que ía buscar o meu BI a casa para lhe mostrar. Tínhamos então o senhor zeloso, o polícia, o bombeiro que entretanto chegara e aquela “polícia nada simpática”, que andava de gabardine, chapéu e lia o jornal “A Época”, do outro lado da rua. Já me estava a ver atrás das grades como nos filmes, e só ao fim de quase vinte minutos de troca de argumentos entre a minha mãe e o senhor zeloso, me deixaram entrar e quando me sentei já o célebre “Ulisses” rodava a alta velocidade, ou seja tinha perdido cerca de 18 minutos de filme, algo que descobri meio-século depois, precisamente no dia em que estou a escrever esta crónica, após ter visto o filme no pequeno écran, em cópia restaurada, no Canal ARTE e valeu a pena, porque a película é fabulosa e as cores são verdadeiros frescos.


O Chiado Terrasse encerrou portas no início dos anos setenta, (30/06/1971), mas recordo muito bem da última sessão dupla que por lá vi, porque foram dois filmes que me marcaram. O primeiro foi o famoso “Por Quem os Sinos Dobram” / “From Whom The Bells Tolls”, realizado pelo Sam Wood, com a Ingrid Bergman (Linda!) e o Gary Cooper, baseado no célebre livro do Hemingway, que eu ainda não sabia que se iria tronar um dos meus escritores de cabeceira, outro filme que revi recentemente, também no Canal Arte.


Já a outra película, intitulada “O Cântico da Carne” / “The Miracle”, datada de 1959, tinha a particularidade de ter como protagonista Roger Moore, que eu “conhecia muito bem” da televisão, mas nunca tinha visto no grande écran e cuja acção se desenrolava em Espanha durante as invasões Napoleónicas, contando ainda com a presença da bela Carroll Baker e tendo a particularidade de ter tido dois realizadores: Irving Rapper e Gordon Douglas.

Mas se me perguntarem de que me recordo mais nas minhas memórias da sala do Chiado Terrasse, terei que confessar que é da alegria das sessões para os mais pequenos no período do Carnaval, a famosa cabine de projecção e claro a Ingrid Bergman, linda, de cabelo curtinhoJ!

Rui Luís Lima

domingo, 17 de junho de 2018

Cinema S. Luiz


A primeira vez que entrei no Cinema São Luíz, situado na Rua António Maria Cardoso em Lisboa, tinha a idade de um dígito terrestre e o meu filme de estreia nesta bela sala de cinema foi o famoso “Bambi”, de Walt Disney, tendo desde logo ficado cativado por esse pequeno coelho chamado Tambor.


Adorei a sala de espectáculos e só muitos anos depois descobri a história deste local que, em 22 de Maio de 1894, viu nascer o Teatro Dona Amélia, estávamos ainda na Monarquia, sendo o responsável pela obra o Arquitecto Louis Reynaud, depois a Monarquia caiu e sabiamente o proprietário do teatro, homem avisado, “nesta coisa da mudança dos ventos”, rebaptizou o espaço de Teatro da República, mas quatro anos depois um incêndio destruiu por completo o edifício e só passados dois anos, a 16 de Janeiro de 1916, a sala renasceu, dentro dos condicionantes da época.


Alguns anos depois e já com a República bem consolidada, chegou a vez de a Sétima Arte se implantar no território nacional, cativando o público dos mais diversos extractos sociais e assim o espaço do teatro foi adaptado para receber o Cinema e ser novamente rebaptizado, desta feita de São Luís Cine e o sucesso ultrapassou todas as expectativas, tornando-se a primeira sala a ter instalação para os filmes sonoros, recorde-se que durante alguns anos o cinema mudo e o cinema sonoro conviveram nas salas de espectáculos, até que o segundo se impôs definitivamente e seria precisamente na segunda metade da década de sessenta que eu iria descobrir o São Luíz, vendo por ali, na companhia da minha mãe e avó, os mais diversos géneros cinematográficos tendo-me iniciado com o “Bambi”, como já referi.


Mas uma película de que guardo boas e más memórias desta magnifica sala de cinema é precisamente outro filme da Disney, “Se o Meu Carro Falasse” / “The Love Bug” de Robert Stevenson, em que o herói era um carocha igual ao da minha mãe, só com a diferença que este andava bem mais depressa, mas por outro lado portava-se muito mal, mas se entrei bastante molhado na sala devido à chuva que fazia, quando saímos estava uma verdadeira tempestade e na correria para entrar no carro decidi antecipar-me à abertura da porta, tendo mergulhado no charcoJ!

De todos os musicais que vi no Cinema São Luíz, o que me ficou para sempre na memória foi o “Sete Noivas Para Sete Irmãos” / “Seven Brides For Seven Brothers” de Stanley Donen, tendo ficado fascinando pelas coreografias desse génio do bailado chamado Michael Kidd, na época fixei para sempre a sequência da construção da casa.


Já no que diz respeito aos “westerns” e foram muitos, tinha já um herói no actor John Wayne e embora ainda não lhe fixasse o nome conhecia-lhe o rosto e quando o vi na película de Henry Hathaway “A Velha Raposa” / “True Grit”, hoje em dia célebre devido ao “remake” dos irmãos Coen, fiquei muito preocupado por o actor principal ter perdido uma das vistas e usar uma pala igual à de um tal general, que tinha visto na televisão e tinha um filho que era actor de cinemaJ!


Depois vieram os anos da cinéfilia e o São Luíz foi uma das primeiras vítimas das salas Estúdio que começavam a proliferar pela capital na década de setenta, do século passado, começando a sua sala a ser usada para a passagem de ciclos de cinema de diversas Associações como a “Ver Filme” do José-Camacho Costa e Cine-Clubes  e foi assim que descobri nessa bela sala, numa noite de Verão, o “M-Matou” / “M” de Fritz Lang, com um Peter Lorre sublime, tendo já perdido a conta às vezes que revi este filme numa sala de cinema ao longo dos anos.


Outro momento cinéfilo que guardo com muito carinho na sala do Cinema São Luíz foi a descoberta desse grandioso filme barroco de Max Olphuls, “Lola Montès”, que foi exibido numa versão restaurada e que me deixou fascinado em todos os aspectos: argumento, realização, fotografia, interpretação e uma inesquecível Martine Carol, que infelizmente nos deixou cedo demais.


Por fim, se me perguntarem qual foi o último filme que vi na sala do Cinema São Luíz a resposta é fácil, porque nunca mais me esqueci de “Les Trois Couronnes du Martelot” do chileno Raoul Ruiz, cuja rodagem se processou em Portugal (Continente e ilha da Madeira) e tinha como uma das intérpretes a Lisa Lyon, um dos mais célebres modelos de Helmut Newton, muito em voga nesses anos oitenta e com presença regular nas páginas da revista Photo.

Depois o São Luíz voltou a ser sala de Teatro e de Concertos, aberto também a encontros de Poesia e Literatura, gerido pelo Município, mas o Cinema, essa maravilhosa Arte, já com mais de um século de existência, ausentou-se do seu espaço para sempre.

Rui Luís Lima

sábado, 16 de junho de 2018

Cinema Europa


Tenho de confessar que tenho uma estima muito particular pelo Cinema Europa e já vão perceber porquê! Mas vamos primeiro aos factos ou seja o seu nascimento em 1930, quando a zona de Campo de Ourique até parecia estar na periferia da capital, sendo o seu responsável o Arquitecto Raul Martins, que também iria assinar o nascimento do famoso Jardim Cinema, tendo a sala do Cinema Europa uma plateia e um balcão, os quais irão desaparecer quando em 1958, ano da minha chegada a este Planeta vindo de Marte, foram efectuadas enormes alterações na sua estrutura pelo Arquitecto Carlos Antero Ferreira, criando o a célebre e sublime Plateia em rampa, que proporcionava ao espectador condições únicas de visibilidade para o écran, especialmente para aqueles que, como eu, tinham apenas um digito terrestre na idade.


Foi assim no Cinema Europa que descobri esse célebre comediante chamado Louis de Funés e “O Gendarme de Saint-Tropez” /  “Le Gendarme de Saint-Tropez”,  realizado por Jean Girault, tornando-me de imediato fan deste memorável actor francês. Mas seria também aqui que a minha mãe e avó e o senhor do bar do cinema perceberam que não valia a pena tentarem dar-me gato por lebre ou seja, durante a minha infância nunca fui menino de doces, mas gostava de um chocolate chamado “Candy-Bar”, mas já não havia nesse dia no bar do sinema e se não havia, também não queria outro. Então estes três amáveis adultos tentaram “oferecer-me” um outro doce, mas mantive-me firma na recusa e foi a minha mãe que comeu o chocolate que o cavalheiro lhe recomendou e depois lá fomos continuar a ver “Les Charlots”!


Les Charlots eram os Malucos, um grupo de jovens franceses que só faziam asneiras, sendo um dos actores o português Luís Rego, que sempre trabalhou em França e que ainda recentemente vimos num dos episódios da série “Candice Renoir”, esta troupe que andou nas salas de cinema na década de setenta teve enorme sucesso nas bilheteiras, incluindo no nosso país, mas hoje neste século amnésico, quem se lembra deles? Possivelmente só um executivo de um Estúdio de Hollywood para lhes copiar os gags!


Um dos filmes mais marcantes que vi no Cinema Europa foi “As Sandálias do Pescador” / “The Shoes of The Fisherman” de Michael Andersen, em que aprendi que o mundo estava dividido por um muro e um dia um homem oriundo desse outro lado chamado Kiril Pavlovich Lakota, um simples Arcebispo, iria chegar a Papa, embora na realidade ele se chamasse Antonio Rudolfo Oaxaca Quinn, fosse mexicano e se tornasse célebre em Hollywood com o nome de Anthony Quinn e nos meios mais populares, com o cognome de Zorba, o Grego! Este filme que me marcou bastante, contava também com o célebre “Fugitivo” da série de televisão, conhecido por David Janssen, e abriu-me os horizontes. No domingo seguinte, na Catequese depois da Missa, a professora desistiu de tentar responder às minhas perguntas e disse para eu falar com a minha avó, que ela sabia as respostas às minhas perguntasJ!


Quem me conhece, sabe que tenho uma profunda admiração pelo cinema francês e pela cultura francesa, especialmente no que diz respeito ao Cinema, Literatura e Belas-Artes, porque podemos continuar a ver o Jean-Paul Belmondo a fumar aqueles cigarros todos no “Acossado” de Godard e não temos as pistolas no “E.T.” de Spielberg a serem substituídas por telemóveis. Mas vamos ao que interessa ou seja essa bela película intitulada “A Solteirona” / “La vieille fille” de Jean-Pierre Blanc, com a Anne Girardot, a Marthe Keller, a Edith Scob e a Maria Schneider, porque neste filme o cinema e a vida respiram pelos fotogramas e aqui já começava a cultivar essa estranha “coisa” hoje em dia tão fora de moda que é a cinefilia.

O Cinema Europa foi uma das minhas salas favoritas, com a sua plateia em rampa, possivelmente já perceberam que não sou fan de balções, mas se gostava tanto de ir ao cinema Europa, porque andava na Manuel da Maia, no Ciclo Preparatório, também foi aqui que cometi esse pecado, pela primeira vez, tantas vezes repetido, nos meus tempos de estudante, de faltar às aulas para ir ao cinemaJ!


Nessa tarde só tinha duas aulas e então decidi ir conhecer o deserto. ou melhor ir ver o “Lawrence da Arábia” / “Lawrence of Arabia” de David Lean, mas como só tinha entrado nos dois dígitos da idade terrestre à pouco tempo, não percebi como esse filme iria ser longo e assim, quando aqueles árabes todos começaram a decidir a divisão do Médio-Oriente, sentados a uma mesa com todos a discutirem e sem ninguém se entender (discussão essa que continua nos dias de hoje, sem fim à vista), comecei a olhar para as horas e desde esse momento até terminar o filme tinha dois “écrans” no meu ângulo de visão: o da tela e o do relógio! E quando o filme terminou, saí disparado da sala, conseguindo descer a Calçada da Estrela mais depressa que o 28 da Carris e quando cheguei a casa a minha avó disse:
- Vens cansado Rui, por onde andaste?
- Decidi vir a pé pelo Jardim da Estrela e só depois reparei nas horas.
No dia seguinte a minha avó deu-me o bilhete do cinema que tinha esquecido no bolso das calças e recomendou-me que nada dissesse à minha mãe…


O magnífico Cinema Europa fechou as portas como Templo da Sétima Arte em 1981, foi transformado em Estúdio de gravação de televisão e recentemente viu nascer ali uma Biblioteca, fazendo parte da rede de Bibliotecas Municipais… espero que não se esqueçam dos livros de cinemaJ!

Rui Luís Lima